domingo, 22 de março de 2015

Segunda parte da entrevista com Goggle Red: “Para mim, tokusatsu é um gosto e, como tal, precisa ter hora e espaço certo para ser cultivado”.

Confira a segunda e última parte da entrevista com o Goggle Red
Preparados para conferir a segunda parte da entrevista com o Mr. Goggle Red? (risos, pois ele considerou muito “pomposo” o tratamento, mas é o reflexo do meu respeito a ele) Aconselho a vocês lerem essa segunda parte na íntegra, pois ele menciona o porquê está um tanto “enjoado” de tokusatsu no momento, revela-nos se acredita que há necessidade das séries passarem por uma “revolução”, compartilha conosco sobre a possibilidade ou não do retorno do tokusatsu para a TV aberta aqui no Brasil, além de muitos outros assuntos colocados em pautas. Boa leitura!
Taty – Como você relaciona as séries de tokusatsu e o universo artístico?
Goggle Red – Por ser algo que busca por um ideal de produção e tenta corresponder às expectativas de um público em potencial, o tokusatsu pode sim, ser relacionado entre os expoentes artísticos que conhecemos hoje. Mas existem dois tipos de arte: a arte de apelo popular (que prioriza seu foco no público) e a arte "pura", que é a arte feita em nome da arte. Na arte "pura", o artista trabalha menos para o público e mais para ampliar seus próprios horizontes artísticos. É daí que vem aquela famosa queixa do "artista incompreendido", porque a arte "pura" requer dedicação e, muitas vezes, até certo preparo anterior do público para ser bem assimilada. Há pouco eu defendi numa matéria que Kamen Rider Decade usa arte "pura" quando aposta em passagens abstratas, sem uma explicação lógica e definitiva, isso porque tais explicações devem vir à tona através do raciocínio de cada espectador. Ou seja, o assunto em questão, ao invés de encerrado e ponto, passa a ser flexível, cada cabeça, uma sentença, mas requer do espectador que ele pense, e assim, participe. Kamen Rider Hibiki – que eu adoro – também usou muita arte "pura" em sua concepção. Eu reconheci aquilo de imediato, e achei demais, uma ousadia bem interessante mesmo. Mas outra grande parcela do público, ao invés de assistir aquilo, queria apenas assistir a uma série Kamen Rider. E o que a Toei fez? Trocou o produtor, porque perceberam que era ele quem estava exercitando seus conceitos de arte às custas da série. Foram direto à raiz do problema [sorte que deu pouco resultado! (risos)].
 Tema de abertura de Gaoranger

Taty - Ainda nesse tema, como você vê a área musical dos tokus?
Goggle Red - Sobre a música dos tokus, eu poderia falar muito. O fato de eu ter estudado música, me formado em piano, me aperfeiçoado, etc, contribui para que eu tenha muitas ideias em relação a isso. Minha formação é Clássica, mas, na teoria geral, música é quase tudo a mesma coisa. Um Prelúdio de Bach e uma tokusong qualquer seguem a mesma receita: uma tonalidade básica, de onde a música começa a caminhar, depois uma dissonância, que gera a tensão necessária para se desenvolver a música, e por fim uma consonância, que resolve aquela tensão, antes de se começar tudo de novo. Ambos os estilos de música existem seguindo esse mesmo ciclo, até quando encontram um "escape", conseguindo abraçar de volta a tonalidade do início, e assim, ter um meio seguro de concluir seu material, de se encerrar. Para poder fazer tudo isso, tanto o Clássico quanto a tokusong usam os mesmos temperos: harmonia, melodia e ritmo. Mas isso é apenas teoria. Acho que, para curtir e classificar uma tokusong como boa ou ruim, o tokufã não precisa ter em mente esse monte de coisa. Curtir, achar envolvente (ou não) será sempre mais importante. Talvez, a única vantagem de eu ter estudado teoria da música, nessa hora, é que isso me permite ouvir inclusive tokusongs de duas maneiras diferentes: para curtir ou para observar o trabalho composicional que foi feito ali. Como fã, eu estou sujeito a gostar de qualquer tokusong que apareça por aí. Já como observador, mesmo uma tokusong que eu curta bastante pode não atender as expectativas que eu tenho pelo lado teórico. Basicamente, a exigência desse meu lado careta é uma só: a tokusong em questão precisa refletir a época em que sua série foi feita. Se eu escuto o tema de abertura de Ninninger, eu quero me sentir em 2015, e não em 2002, que é quando aquele tipo de estrutura composicional começou a ser usada nas tokusongs dos Super Sentais. A aparência é de um hard-pop-rock, mas não tão hard, pois logo se vê que aquilo zela mais por animação do que por agressividade. As vozes são doces, não adianta variar de cantor, já que qualquer um deles teria espaço no Psychic Lover. Longe, portanto, do pulso firme que a gente ouvia na voz de um Miyauchi, e que por si só já foi uma das referências para a época em que se decidiu abolir o tom de heroísmo das tokusongs, substituído por um apelo mais emotivo, que marcaria a segunda metade dos anos 80. Já hoje em dia, eu sinto que poucas tokusongs estão plenamente sintonizadas com o nosso tempo. Nos temas de Tokkyuger e Kamen Rider Drive, por exemplo, eu sinto que a riqueza de composição até aparece em certos trechos, mas eles são muito, muito breves. Não duram quase nada, e suas continuações fazem a música voltar ao nível ruim de antes. Acho que, para ser totalmente boa, qualquer tokusong de hoje precisa ter agressividade no seu andamento e flertar com gêneros novos, Black Music, Street Dance, Tecno, Rap, até porque o mundo de hoje é muito eclético. Além disso, acho que a tokusong do nosso tempo precisa causar impacto e até um certo constrangimento. O impacto seria para distanciá-la o máximo possível de suas antecessoras. E o constrangimento poderia ser medido da forma mais engraçada. Imagine eu, de frente para você, tentando cantar o trecho mais significativo da abertura de Gaoranger ("Gao, gao... gao, gao")! (risos) Eu me sentiria constrangido, você não? É curioso como eu ainda enxergo o futuro naquela passagem de século. A música de Timeranger, Gaoranger, entre outras, seriam ideais para os tokus de hoje. O problema é que elas causaram uma revolução muito substancial naquela época e que, lamentavelmente, não teve continuidade nos anos seguintes. Toda aquela revolução musical nas tokusongs foi impiedosamente apagada, e isso antes que pudesse marcar uma época. Alguns poderão dizer "ah, mas isso já foi há 15 anos". Não acho que seja nostalgia minha, não. Pois aquele movimento musical nem sequer teve tempo de se identificar com uma época. Até por isso, fico triste quando vejo falarem mal da música de Timeranger sem um certo conhecimento de causa. Apesar de ter sido feita há 15 anos, a teoria ainda comprova que não existe nada mais "future" em relação de tokusongs como a música de Timeranger. Gosto muito da Go2 Mickey-T – num outro exemplo – sua "Yuki wo Nakuseba" (usada em GoGo V) é perfeita demais, demais! E pensar que hoje eu tenho que me satisfazer com trechinhos! (mais risos) Mas, mesmo assim, acho que, de recente, tiveram muito êxito a introdução de Kamen Rider OOO ("You count the medals one, two and three..."), os vocais de apoio no tema de Gaim ("Don't say no! Just live more!") e todo o primeiro bloco da abertura de Ultraman Ginga.

Henshin World um dos Blogs mais analíticos sobre o universo tokusatsu
Taty – Como você incorpora o Goggle Red ao seu dia a dia? Seria Goggle Red também sua identidade secreta, como os verdadeiros heróis também desfrutam de uma?
Goggle Red – De forma nenhuma. O fato de eu usar exclusivamente esse nick pela Tokunet é, como eu disse, por uma questão de praticidade, jamais como tentativa de me ocultar de alguém. Muito pelo contrário. A ideia de me apresentar pessoalmente para outros tokufãs até me estimula. Passa, infelizmente, pela questão da disponibilidade, minha e dos outros, mas, uma vez vencida essa barreira, eu não vejo nenhum outro motivo que me levaria a assumir uma posição defensiva, tampouco enigmática. Sei de tokufãs que exigem muito mais privacidade para si do que eu. Vejo a privacidade que eu exijo para mim como normal, como típica, básica. Gosto, sim, de conversar com o colega antes de me abrir mais, conhecê-lo o suficiente, para que depois eu possa reconhecê-lo como alguém mais chegado. Para esses, mostro minha foto, digo meu nome, etc. Já fiz tudo isso com você, que eu conheço e admiro. Mas não são todos que estão dispostos a ter esse tipo de contato. No Facebook, por exemplo, muitos só querem me marcar nas malditas fotinhas vistas, revistas e manjadas do personagem Goggle Red, e nada mais. Eles mesmo sugerem que se negam a reconhecer que existe uma pessoa real, um ser humano como qualquer outro por trás daquele nick. Nesses casos, qualquer tentativa de providência da minha parte está, virtualmente, fora do meu alcance. Acho que o simples fato de um tokufã escolher para si um nick relacionado ao assunto deveria ser encarado com muito mais naturalidade e compreensão pelo meio. Mas é frustrante ver como os próprios tokufãs ajudam a mistificar e obscurecer a personalidade de quem opta por coisa assim. Outro dia mesmo eu li uma matéria do colega Kleber Nazca, num site que eu colaboro (o Rampage Subs), em que ele disse, até de uma forma meio generalizada, que os tokufãs que se identificam através de nicks fazem isso porque têm vergonha, e querem esconder de parentes e de amigos mais próximos que curtem toku. Pelo menos para mim, isso não corresponde de maneira nenhuma. Claro que eu não saio por aí só falando de tokus – até porque poucos ao meu redor sabem do que se trata – mas ter vergonha de meu gosto por eles? É algo fora de questão.
Respondendo à outra pergunta, na verdade eu incorporo mais a série Goggle V do que o personagem Goggle Red no meu dia a dia. Faço o que é possível para reviver as boas recordações que tive com ela e busco constantemente por meios de reconhecer a intensidade de espírito que ela me ofereceu na época em que a conheci. Já o personagem em si não me diz muito. Não tenho nenhuma atuação individual dele na minha memória afetiva de tokus, nada disso. Se fosse só por questão de personagem, eu até faria um novo nick para mim, como um "Jin Keisuke", se fosse neste momento. Aí sim, teria tudo a ver com a minha pessoa, mas dificultaria muito o reconhecimento que meus amigos do meio tokufã já fazem de mim.

Blog Tatisatsu
Taty – Agora, um pouco de história. Como o Goggle Red conheceu o Blog Tatisatsu? E como viu essa prática de mais uma garota falar sobre Tokusatsu (já que a Lilian-san é a pioneira nesse ramo)?
Goggle Red – Essa é uma história que me surpreende até hoje, a cada vez que eu me lembro dela. Por incrível que pareça, meu primeiro acesso ao Tatisatsu ocorreu justamente num dos dias mais memoráveis para mim enquanto fã de tokusatsu: 2 de maio de 2012. Sabe aquela “sensação indescritível” que eu disse que sentia na época da TV? Pois eu senti ela pela última vez naquele dia. E – mais incrível ainda – através de PATRINE, que até então eu nunca havia visto. Apesar de ser tosquinha, apesar de não ter ambição nenhuma, Patrine foi, até hoje, a única série que conseguiu me trazer de volta aquele “estalo” de criança. Algo muito, muito perto do que eu sentia quando zapeava a TV e encontrava um toku que fosse novidade para mim. E isso que aconteceu naquele dia, para o meu emocional, foi muito intenso, pois mesmo que eu quisesse não conseguiria, jamais, recriar a pureza de todo aquele cenário que me envolvia há cerca de 20 anos atrás. E aquele episódio inicial de Patrine conseguiu recriar, ao menos, a essência daquele cenário, me elevando a um certo estado de estimulação que, logo depois, me guiaria até o Tatisatsu. Naquele dia, o meu êxtase por Patrine era tanto que eu queria escrever algo – um mínimo que fosse – para o Henshin World. Hoje, quando eu observo a simplicidade daquele post, eu penso: “É. Aqueles tempos me permitiam fazer isso”! (risos) Porque foi coisa muito simples mesmo, que hoje iria, no máximo, para uma nota na Fan Page que o site tem no Facebook. Pelo menos, eu já buscava por referências para escrever. E foi uma das sugestões daquela busca (não lembro bem se de texto ou de imagem) que me levou até o seu blog. 
O fato de a autora ser uma menina, para mim, só ressoou positivamente. Eu vi aquilo com muita naturalidade – já há algum tempo eu vinha mantendo contato com uma garota chinesa nos fóruns de toku que eu participava – mas vi também com muita esperança. Esperança de que aquela "visão feminina" prometida pelo blog fosse uma porta aberta para uma maior valorização do toku enquanto sentimento, algo que também é uma filosofia cara ao Henshin World. E, apesar da Lady exigir para si, constantemente, o título de pioneira entre as nossas divulgadoras femininas de toku – como você mencionou – pelo menos para mim, na minha visão daquele momento, a Primeirona foi você. Fui conhecer a Lady só um ano e meio após isso. Acho também que o fato de você ser mulher me fez observar muito a minha condição, de homem, na maneira como eu deveria abordar-te, para um eventual contato, para propor parceria. Desde o início, desde o primeiro e-mail que te enviei, e que guardo a resposta até hoje, com muito carinho, lembro que sempre busquei por uma abordagem mais respeitosa para com você, medindo mais as minhas palavras, pensando mais na consequência delas quando chegassem até você, etc. Enfim, essas coisas básicas, que também valem para qualquer outro relacionamento de amizade entre homem e mulher no nosso cotidiano. No começo, claro que me deu aquele friozinho na barriga! (risos) Mas sua posterior receptividade fez com que tudo desse certo. E hoje, o resultado é esse que vemos aí: quase três anos de uma amizade sólida, cheia de compreensão mútua, e com todo esse reconhecimento visível que mantemos um pelo outro, graças a Deus. 

Tokusatsu é um gosto...
Taty – Por que você anda tão “enjoadão” de tokusatsu? O que te fez desmotivar tanto? Comente a respeito.
Goggle Red – Essa é uma grande verdade. Eu já gostei de tokusatsu muito mais do que hoje. Para mim, tokusatsu é um gosto e, como tal, precisa ter hora e espaço certo para ser cultivado. Num plano maior, acho até que esse tipo de consciência valoriza ainda mais o toku. Meus amigos mais próximos do meio toku já estão bem cientes desse meu enjoo, sabem que hoje em dia eu tenho outros gostos muito maiores. Agora, no geral, acho que esse meu enjoo está sendo pouco ou nada sentido na comunidade toku, pois, longe de se caracterizar como desmotivação minha, eu ainda toco a minha mídia (Henshin World) normalmente, continuo participando de outras mídias, seja com comentários ou atuando através de atividades que somem para as desenvolverem, entre outras situações. Mais além, eu nunca me nego a conversar sobre toku com ninguém, quando essa conversa é num nível pessoal. Sempre atendo a todos que me procuram para algum diálogo particular relacionado à tokusatsu, sejam essas pessoas conhecidas ou não, amigos de longa data ou recém-chegados. O único, porém é que eu limitei certos espaços meus, muitas vezes, até relacionados à minha privacidade, por achar que eles não são adequados para se falar sobre toku. Para um alheio, resta aquela questão do respeito e do reconhecimento. Principalmente porque eu faço um esforço integral visando manter a minha mídia sempre aberta para todos os tokufãs que quiserem vir a interagir através dela. É um esforço tão grande quanto o que eu também faço para acolher as mais diferentes opiniões desses mesmos tokufãs da melhor maneira possível, valorizando cada uma dessas opiniões, explicitando como as mesmas são importantes para o andamento da minha mídia e, através disso, até estimulando cada um a opinar ainda mais. De modo geral, acho que o problema de meu desgosto pessoal aos tokus passa pela falta de reconhecimento ao meu trabalho, sugerida por alguns colegas, se por indiferença ou por desinformação, não se sabe. Acontece que esse problema quase sempre gera outro muito maior, em que a pessoa Goggle Red passa a ser confundida com o tokufã de mesmo Nick, na minha visão, uma tremenda e injusta falta de sensibilidade da parte de alguns, que com isso demonstram empolgar-se com uma mera aparência. Para encarar coisa assim, eu preciso de certo tipo de paciência regenerativa, já que tal coisa abre espaço até para o que parecem ser provocações voluntárias, às vezes. Minha resposta mais relevante a tudo isso ainda se manifesta assim, na forma de certo desgosto em relação aos tokus.

Kamen Rider OOO e Ankh
Taty – Você acredita que as séries, de uma forma geral, deveriam passar por uma “revolução”? O que você pensa sobre as renovações e as referências nas séries de hoje em dia?
Goggle Red – Eu não diria uma revolução, mas sim uma evolução, contínua e consciente. No meu entendimento, nós já tivemos sim, uma grande revolução no tokusatsu, que surpreendentemente ocorreu justo na passagem do século. O abandono definitivo da película nas edições finais ocorreu lá, revolucionou o visual dos tokus, a música deles acompanhou aquela revolução, etc. Mas hoje, nós já estamos vivendo outro tempo. Hoje, salvo por algumas tentativas isoladas de se radicalizar, como essa em que a Toei demonstra estar puramente deslumbrada com certas conquistas, não me resta dúvida que estamos num período de maior estabilidade. Sobre as referências, acho algo bem válido, até porque o tokusatsu, por ser reconhecido como a expressão cultural que é, possui certa identidade que precisa ser zelada. E qualquer referência que venha a ser de valor para os tokus do futuro deve passar, obrigatoriamente, por esse processo de zelo a algumas características que são próprias e até exclusivas dos tokus. Por exemplo, eu defendo a ideia de que existem certas tradições no tokusatsu que precisam ser sempre mantidas. Na maioria dos casos, essas tradições estão associadas ao que eu chamo de “momentos sagrados”, que são aqueles instantes que requerem certa ênfase, como transformações, golpes finalizadores, etc. Mas a defesa da tradição aqui não deve ser encarada só como um apelo ao conservadorismo, e sim como uma garantia de legitimidade. Acho que o principal papel da tradição, quando ela é preservada, é garantir essa identidade básica que eu citei agora, algo que vale para cada gênero em particular, fazendo-o mais facilmente identificável para as sucessivas gerações de fãs. Mesmo assim, é importante tentarmos compreender que toda tradição, por mais importante que seja para seu contexto, está sujeita a desaparecer se não se adaptar a uma nova época. Eu, por exemplo, adoro apresentações individuais, pois vejo nelas a autoafirmação de um guerreiro. Quando se apresenta para o inimigo, um guerreiro já começa a vencer, pois supera o seu medo natural enquanto confirma ao adversário que está pronto para lutar. No passado, essas apresentações tinham um espaço que hoje não têm mais, muito porque elas estavam protegidas por um esquema cíclico, quase todo santo episódio repetindo os mesmos trechos. Com o ritmo que existe nos tokus de hoje, coisa assim, com a mesma frequência, já é inviável. E se a gente tomar por modelo o que o Kamen Rider Mach está fazendo, o que antes era bonito e emocionante hoje corre o risco de ficar fadado ao cômico e ao ridículo, justamente por causa dessa dificuldade de adaptação.
Sobre a evolução que eu citei no início, acho que é uma lei natural que se aplica a todas as áreas da vida e, até por isso, dá ao tokusatsu a obrigação de estar sempre buscando inovar. Em qualquer época, sempre foi e sempre será um desafio muito grande tentar prever o que veremos no futuro do toku. Do ponto de vista tecnológico (e até por exemplos históricos), certas tecnologias do cinema americano podem servir, às vezes, como parâmetro. Há algumas semanas eu li sobre uma conquista recente deles que, se for aperfeiçoada ao longo de um tempo satisfatório, poderia até dar uma mobilidade facial inédita aos monstros, por exemplo. São sensores que se espalham pelos tecidos dos atores/dublês, tal como eletrodos, captam a mais ínfima movimentação muscular e a transmite para a imagem do computador, que edita tudo num instante. Para um monstro movimentar a boca enquanto fala, hoje, seria necessária uma pixelização muito extensa até que se cobrisse a ação do bicho ao longo de todo um episódio. Algo ainda complicado demais e, portanto, dispensável. Já do ponto de vista da composição, eu, pessoalmente, adoraria que o tokusatsu evoluísse de uma vez por todas junto à área dos vilões. Acho triste ver como o toku ainda se prende tanto aos vilões de características padronizadas, na esperança de que brote algum carisma de suas figuras previsíveis. Dentro disso, tomemos o gênero Kamen Rider, que já provou por mais de uma vez como dá para fazer uma guerra decente, cheia de perigos, dúvidas e aflições mesmo sem nenhum figurão de destaque do outro lado, vide Blade, Ryuki, Hibiki, Gaim... Mas, vira e mexe, o mesmo gênero retrocede. Em Wizard, eu não suportava a presença do Gremlin e da Medusa. E agora, vem o Drive com Heart, Brain, Medic, que já é muito. Ah, sim, e o Chaser, que um tokufã manchetista até poderia chamar de "Shadow Moon de pobre", num lance de descontração meio fajuto! (risos) Mas, na minha visão, Kamen Rider OOO foi mesmo o único toku desta década, até aqui, com vilões que valeram a pena, mesmo sendo padronizados. Acredito que muito disso se deva à presença do Ankh do lado em que ele não deveria estar e, mais ainda, à essência das Core Medals. "Aquilo que me completa também dá força para o meu inimigo", vale muito reparar nessa mensagem.

Geração Manchete - a Força da Cultura Japonesa
Taty – Como tokufã, o que você diria para os colegas que sonham e desejam a volta das séries para a TV aberta aqui no Brasil?
Goggle Red – Eu tenho uma opinião sobre isso que irá decepcionar muita gente. Mas essa mesma opinião também é uma das minhas ideias mais definidas, na qual eu deposito muita convicção, e que, portanto vale ser citada por aqui com o máximo de transparência e sinceridade. A verdade é que, pessoalmente, eu sou muito contra a volta dos tokusatsus para a TV brasileira. E não te digo isso como um mero capricho de alguém que está em busca de polêmica, ou que deseja posar de excêntrico, não. Te digo isso após me basear em toda uma conjuntura, que me fez chegar na plena conclusão de que continuar longe da nossa TV segue sendo a melhor alternativa para o bem do toku. Alguns talvez considerem esse recente revival da TV Brasil (que desenterrou Jaspion, Changeman e outras pérolas da Manchete) como um retorno do toku à TV. Pelo menos para mim, aquilo não é suficiente para configurar isso. Salvo alguns sentimentos emotivos ou nostálgicos, eu não vejo nenhum outro valor em se exibir, nos dias de hoje, um punhado de produções feitas há 30 anos. Aquela tecnologia, aqueles costumes sofreram mudanças tão radicais ao longo desse tempo que jamais poderiam sequer dar uma amostra aos telespectadores da TV Brasil o que é, de fato, o tokusatsu produzido nos dias de hoje. E isso é muito prejudicial para o toku no país, pois fomenta a hipótese de que não existe nada mais moderno do que aquilo. Se alguma emissora quisesse investir maciçamente em tokusatsu, configurando um retorno definitivo do hábito cultural que eles já foram em outra época, deveriam trazer para cá séries produzidas há poucos anos, um Shinkenger, um Goseiger, um Kamen Rider OOO, entre outros. A Manchete, que trazia os tokus para cá três ou quatro anos após eles terem sido exibidos no Japão, poderia ser uma referência muito segura nessa hora. Mas nenhuma emissora de hoje tem estrutura suficiente para isso. Certos interesses comerciais, que sempre vêm acima de tudo, não permitiriam que se tivesse a calma necessária para garantir uma continuidade decente, rodar uma abertura, um encerramento a cada exibição. Regularidades essas que foram a marca da Manchete, e que ajudaram a formar tokufãs apaixonados, que hoje se recordam de endings com emoção porque as viram por inúmeras vezes na TV. Hoje, ninguém, nem o exibidor nem o patrocinador por trás dele teriam paciência para isso. E acho ainda que, mesmo para o produtor japonês, saber que o seu toku irá ser exportado para um país como o Brasil também poderia ser prejudicial. Pois sabendo disso, ele certamente iria evitar colocar em seu seriado certos itens próprios da cultura japonesa que são incompreensíveis (e às vezes, até inaceitáveis) para os ocidentais. Ou seja, o toku que fica com sua comercialização quase toda restrita ao Japão goza de plena liberdade para se desenvolver com a cara de seu povo, de sua cultura.
Para quem pensa diferente de mim e sonha com tokusatsus na nossa TV, eu diria: "Ok, respeito a sua opinião, mas acho que você está reclamando de barriga cheia". Eu acredito que, se formos analisar o lado meramente psicológico desse tokufã, que anseia pelo retorno dos tokus à TV, muitos de nós chegaria à conclusão de que ele nem está tão preocupado assim com o toku em si. Muito mais provável é que esse tokufã quer apenas recriar o cenário que ele vivenciou de criança, ele na sala de casa, de frente para a TV, vibrando, etc. Só que aquele belo cenário também traria consequências. Enquanto que hoje, a Internet nos aproxima dos tokus como nem a Manchete conseguiria fazer. Nós, tokufãs, somos uma comunidade pequena, quase todo mundo se conhece, já trocou uma ideia alguma vez. E mesmo assim, somos autossuficientes na divulgação e na disseminação do toku pelo país. Temos colegas que tocam inúmeros fansubs, a maioria deles dedicados em seu propósito de legendar a maior variedade possível de séries. Outros, como eu e você, garantem um debate sobre elas, oferecem ao público interessado em tokusatsu as mais diversas visões aprofundadas sobre o tema. Eu acho que a melhor forma de se aproveitar tudo isso é fazer parte, deixar as nostalgias um pouquinho de lado, vivenciar a realidade do presente do toku (que é maravilhosa) e, assim, pavimentar da melhor forma um futuro seguro e promissor para o tokufã no Brasil.

Taty – Muito obrigada mais uma vez pela disponibilidade e, por favor, compartilhe conosco as suas derradeiras considerações.
Goggle Red – Vou encerrar agradecendo você, Taty-hime, dizendo que fiquei muito feliz, muito gratificado com este nosso primeiro trabalho juntos. Já estou torcendo para que isso possa se repetir um dia, quem sabe, com a gente trocando de lado, né? (muitos risos) Quero deixar registrado aqui que estas suas perguntas estimularam demais meu raciocínio de tokufã, que me parecia até meio adormecido, em parte. Ainda estou agradecendo, ao meu anjo da guarda, pelo meu colega Eleuzi Fernandes (do Rampage Subs) não ter me enviado nenhuma outra tradução de Sukeban Deka II para eu finalizar ao longo desta semana; porque meu trabalho nesta entrevista certamente o deixaria na mão! (risos) E dizer o quanto espero que isto tudo contribua para o sucesso e para o reconhecimento do Tatisatsu enquanto mídia de toku. Que você, Taty-hime, e seu blog continuem ultrapassando os limites da divulgação do tokusatsu, e façam valer, cada vez mais, o valor da amizade, que é, ao fim das contas, a única coisa que de fato nos interessa aqui.

***

Com certeza valeu muito a pena dividir essa entrevista em duas partes, não é mesmo? Pois assim, pudemos perceber com mais evidência o ponto de vista do nosso amigo Goggle Red! Claro que nem todos vão se identificar com alguma opinião compartilhada, outros o aplaudirão; porém, o fato é que o tokusatsu extrai de nós a essência de ser fã, uns mais apaixonados, outros apaixonados e críticos, e outros completamente críticos e bastantes exigentes. O importante sempre é manter o respeito!

Mas, agora chegou a sua vez, compartilhe conosco o seu ponto de vista, diga-nos o que está achando das entrevistas até o momento... deixe-nos um comentário aqui ou envie-nos um e-mail para tatisatsu@gmail.com
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3 comentários:

  1. Bravo!
    Uma das coisas mais interessantes ao se ler um texto do Red-san, é que mesmo quando não concordamos com ele, a forma objetiva como a opinião é apresentada, nos faz pelo menos refletir bastante.
    Mas desta vez, sou obrigado a admitir que concordo com quase tudo que ele respondeu aqui. Principalmente a parte sobre a volta dos tokusatsua pra a TV aberta.
    Mais uma vez, parabéns por essa maravilhosa cooperação, Taty e Googe Red.

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  2. Essa entrevista é a prova que o Goggle é um cara diferenciado, tanto no trabalho na tokunet como na linha de pensamento. O cara é foda.

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  3. Nossa sem palavras, já tinha entrevistado o Goggle Red no Tokuforce antes, mas essa nova feita pela Taty, apenas complementou o que eu já pensava do meu grande amigoRed.
    Um homem humilde que que mostra em suas palavras o grande homem que ele é.
    Eu já era fã agora mais ainda.
    Parabéns pela entrevista Goggle Red e Tati Hime

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